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A área mais digital do mundo era, afinal, uma das mais manuais

27 de agosto de 2026 por
A área mais digital do mundo era, afinal, uma das mais manuais
Typing, Unipessoal Lda, Ruben Duarte

Quando falamos de transformação digital e de inteligência artificial, existe um paradoxo curioso que poucas vezes é referido. A área mais digital do mundo, a tecnologia e, em particular, a programação, foi durante décadas uma das áreas mais manuais que existiam.

Para transformar uma ideia numa solução, um programador precisava de escrever milhares, por vezes milhões, de linhas de código. Linha a linha. Função a função. Teste a teste. Era assim que uma ideia ganhava vida.

Por detrás de cada aplicação, plataforma ou sistema capaz de facilitar o dia a dia de uma empresa ou de uma pessoa, existiam muitas horas de trabalho, problemas por resolver e, em demasiados casos, muitas noites mal dormidas.

Cada linha de código fazia parte de uma construção maior. No final, depois de semanas, meses ou até anos de desenvolvimento, nascia algo capaz de transformar a forma como alguém trabalhava, comunicava, comprava, vendia ou geria o seu negócio.

A tecnologia digitalizou praticamente todos os setores da economia. Mas quem construía essa digitalização continuava a fazê-lo de uma forma profundamente manual. Foi precisamente aqui que entrou a inteligência artificial.

A inteligência artificial começou por transformar quem criava tecnologia

Quando começaram a surgir os primeiros modelos capazes de gerar código, muitos profissionais da área olharam para eles com desconfiança.

  • Diziam que o código era fraco.
  • Que cometia erros.
  • Que nunca conseguiria compreender sistemas complexos.
  • Que nunca substituiria a experiência de um programador.

Parte dessas críticas era verdadeira. Mas a tecnologia evoluiu a uma velocidade extraordinária. Hoje, os modelos de inteligência artificial já conseguem executar determinadas tarefas de programação com uma velocidade, profundidade e qualidade que, há poucos anos, seriam difíceis de imaginar.

Conseguem criar código, analisar aplicações inteiras, encontrar erros, gerar testes, explicar sistemas existentes, sugerir arquiteturas, desenvolver interfaces e acelerar praticamente todas as fases de um projeto de software. Isto não significa que a inteligência artificial seja melhor do que todos os engenheiros de software. Significa algo talvez ainda mais importante. Em determinadas tarefas, um bom profissional, utilizando inteligência artificial, consegue hoje produzir em horas ou dias aquilo que anteriormente poderia exigir muito mais tempo e, por vezes, o trabalho de várias pessoas. E isso muda completamente a profissão.

O programador não está a desaparecer

Existe uma ideia recorrente de que a inteligência artificial vai acabar com os programadores. Não acredito nisso. Acredito que vai acabar, ou pelo menos reduzir drasticamente, com uma parte do trabalho que os programadores faziam.

  • Escrever manualmente código repetitivo.
  • Criar estruturas básicas.
  • Resolver problemas que já foram resolvidos milhares de vezes.
  • Pesquisar durante horas como utilizar determinada biblioteca.
  • Construir manualmente componentes que podem ser gerados em segundos.

A inteligência artificial está a retirar ao desenvolvimento de software uma grande parte do seu trabalho mecânico. E isso não diminui necessariamente o valor do profissional. Pode aumentar esse valor.

Porque o engenheiro de software deixa de gastar grande parte do seu tempo simplesmente a escrever código e passa a poder concentrar-se naquilo que realmente exige capacidade humana: compreender problemas, definir prioridades, tomar decisões, desenhar soluções e garantir que aquilo que está a ser construído faz sentido.

O valor começa a deslocar-se da capacidade de escrever código para a capacidade de saber o que deve ser construído.

A produtividade mudou completamente

Estamos também perante uma alteração profunda na economia do desenvolvimento de software. Existem projetos ou fases de desenvolvimento que anteriormente demoravam meses e que hoje podem ser concluídos em semanas. Isto abre oportunidades enormes. Um profissional ou uma equipa pode trabalhar em mais projetos, experimentar mais ideias, desenvolver protótipos rapidamente e corrigir erros mais depressa.

Pode criar soluções personalizadas para empresas que anteriormente não tinham capacidade financeira para suportar um desenvolvimento deste género.

E existe ainda outro efeito importante. Durante muitos anos, muitas pequenas e médias empresas tiveram de adaptar os seus processos ao software disponível no mercado. Compravam uma plataforma e depois tentavam moldar a empresa à forma como essa plataforma funcionava.

Com a redução do custo de desenvolvimento provocada pela inteligência artificial, podemos começar a assistir ao fenómeno contrário. O software passa a adaptar-se à empresa.

Cada negócio poderá ter soluções muito mais próximas da sua realidade, dos seus processos e das suas necessidades.

Essa transformação pode criar um mercado gigantesco para profissionais capazes de compreender simultaneamente tecnologia e negócio.

Mas os empresários não vão começar todos a programar

Existe outro argumento frequente. Se a inteligência artificial consegue desenvolver software, então os empresários deixarão de contratar programadores e começarão simplesmente a construir as suas próprias aplicações. Acredito que isso acontecerá em alguns casos. Mas será provavelmente uma pequena parte do mercado. E existe uma razão muito simples para isso.

As ferramentas não eliminam a necessidade dos profissionais. Vou dar um exemplo: se eu precisar de pintar uma parede no meu escritório, posso comprar tinta, comprar um rolo e pintar a parede. É relativamente simples. É certamente mais barato do que contratar um pintor. Mas existem dois problemas:

  • O primeiro é que posso não ter tempo para o fazer.
  • O segundo é que posso não saber fazê-lo suficientemente bem.

Posso escolher a tinta errada, preparar mal a parede ou simplesmente acabar com um resultado muito pior do que aquele que obteria contratando um profissional. No software acontece exatamente o mesmo.

Um empresário pode abrir um modelo de inteligência artificial e pedir-lhe para criar uma aplicação. Mas precisa de saber o que pedir. Precisa de compreender aquilo que está a ser criado. Precisa de perceber se a arquitetura faz sentido.

Precisa de garantir segurança, qualidade, proteção de dados, integrações, manutenção e escalabilidade.

E, acima de tudo, precisa de assumir o risco caso alguma coisa esteja errada. Para muitos empresários, será muito mais simples confiar esse trabalho a alguém que domina a tecnologia.

Ter acesso à ferramenta não significa querer fazer o trabalho

Existe ainda outro exemplo.

Praticamente todas as pessoas têm uma cozinha em casa. Muitas têm equipamentos extraordinários. Algumas têm robôs de cozinha capazes de preparar refeições quase automaticamente. Mesmo assim, os restaurantes continuam cheios. Porquê?

  • Porque o ser humano não procura apenas ferramentas.
  • Procura conveniência.
  • Procura qualidade.
  • Procura experiência.
  • Procura confiança.
  • Procura ser servido.

E acredito que o mesmo acontecerá com a inteligência artificial. Ter acesso a uma ferramenta capaz de criar software não significa que todas as pessoas queiram tornar-se programadores. Tal como ter uma cozinha não transforma toda a gente num cozinheiro profissional.

A profissão vai mudar

A verdadeira transformação não será o desaparecimento dos profissionais de software. Será a transformação daquilo que significa ser um profissional de software.

Durante décadas, grande parte do valor estava na capacidade técnica de transformar uma especificação em código.

No futuro, essa capacidade continuará a ser importante, mas deixará de ser suficiente.

Os profissionais mais valiosos serão aqueles que conseguirem entrar numa organização, compreender como funciona, perceber os seus problemas, identificar oportunidades e desenhar soluções tecnológicas capazes de produzir resultados reais. Depois utilizarão inteligência artificial para acelerar a construção dessas soluções.

O programador deixa gradualmente de ser apenas alguém que escreve código. Passa a ser alguém que resolve problemas utilizando tecnologia. E essa mudança pode tornar a profissão ainda mais interessante.

O futuro não pertence a quem escreve mais código

A inteligência artificial não está simplesmente a transformar o desenvolvimento de software. Está a obrigar toda a profissão a subir na cadeia de valor.

O futuro provavelmente não pertence ao profissional que consegue escrever mais linhas de código. Pertence ao profissional que consegue compreender melhor um problema e transformar esse problema numa solução.

Durante décadas, saber programar significava saber escrever código. Talvez estejamos a entrar numa época em que saber programar significa, acima de tudo, saber o que deve ser construído.

E se assim for, o desenvolvimento de software não está a morrer. Está apenas a entrar na sua próxima grande fase.

27 de agosto de 2026,

Ruben Duarte